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Recados

Sejam bem vindos ao blog, por favor sintam-se a vontade para expor suas opiniões e críticas.

A idéia surgiu a partir do blog de um amigo, o qual cedeu espaço para que várias pessoas colaborassem com seus contos. E ao decorrer do tempo, muitas novas pessoas vieram, e a minha quantidade de contos foram aumentando, com isso surgiu em mim a vontade de postar meus contos em um espaço pessoal.
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Hoje eu sei qual o meu dever, hoje eu sei por que estou vivo, e porque não posso morrer, não me é permitido morrer, não enquanto meu dever perdurar. Tenho orgulho do que sou, e agora entendo o que fui. A vida me criou como um mostro, mas só um monstro pode combater outro. Eu vivia em um baile de máscaras, sendo estimulado dia a dia por aqueles a quem chamava de pai e mãe, a criar um personagem, cada vez mais repugnante, mas o meu verdadeiro pai, Fenrir e minha verdadeira mãe Gaia, me tiraram do baile a força. Em dia de sol, viajamos para uma cidade vizinha, quando uma matilha de lobos nos atacaram, meu pai e mãe foram mortos e estraçalhados na minha frente, fiquei a beira da morte com uma cicatriz da garganta ao peito. Ao acordar no hospital, fui liberado, mas não tinha mais a quem recorrer, logo os mantimentos de minha casa se esgotaram, e em pouco tempo, eu estava invisível ao baile, não mais fazia parte da sociedade, e era tratado como lixo inconveniente. Isso para mim foi a pior das dores, a dor da indiferença. Não suportando esta vida, uma noite resolvi ir até a floresta e acabar com tudo, foi quando renasci.

Tomado pelas forças da natureza, comecei a ouvir um zunido extremamente alto, sentia tantos odores juntos que minha face parecia ter sido esmagada, meus olhos não enxergavam mais as cores do mundo, apenas vermelho, preto e branco, dores intensas tomaram meu corpo de assalto, me debatia no chão como se um demônio estivesse outorgando o direito de meu corpo e alma. Fecho meus olhos e tento lutar contra essa força dominadora, acabo por socar árvores que ficam sem pedaços, meus saltos não mais se equiparam ao de um humano, começo a correr pela floresta, e posso saber tudo o que se passa a algumas milhas ao meu redor, sedento e cego por sangue devasto tudo o que está a minha frente. Por fim a agonia e sentimentos misturados são tão grandes, que chego à beira de um vale e grito o mais alto que posso, mas de o que escuto é muito diferente de um grito, como o choro de uma alma, apenas escuto um uivado tão gélido que arrepiaria o mais cruel dos demônios.

Sim, hoje eu sei, nasci e existo para combater o mal, minha visão não enxerga mais apenas o mundo dos vivos, e meus ouvidos não ouvem mais apenas o que um humano ouve, mas o que tenho de mais precioso, é o meu olfato, posso sentir a presença fétida e imunda de qualquer criatura das trevas de longe, e posso perseguí-lo como se minha visão voasse em seu encalço. Esta noite mais uma existência desnecessária se extinguirá na face dessa terra.

Estou bebendo o vinho tinto seco daquele velho miserável, ele mereceu cada rasgo em seu estômago, e espero que no inferno ele receba muito mais do que fez aquelas garotas. Este vinho abre meu apetite por sangue, o clima seco da floresta de pinheiros também, o vento frio corta minha pele humana, mas isso não durará muito tempo. Aos poucos a floresta vai me mostrando onde você está, sinto o cheiro do cavalo, e de seu perfume adocicado, no meu posto sinto com todos os sentidos você se aproximando, isso vai provocando meu instinto, ouço as batidas do meu coração se acelerando pouco a pouco, como o ritmo de um ritual que levará a sua alma.

Ela passou, e deixou cair um lenço com sangue, não me controlo mais e começo a correr, quando percebo estou com as mãos no chão, como um lobo que persegue sua presa. Em minha mente uma ponte se forma, e quanto mais eu atravesso a ponte, mais eu deixo de ser eu. De um lado eu tenho a razão, na outra o desejo, mas este último me tenta e me provoca, como uma meretriz que põe à prova sua masculinidade, mas eu hei de mostra a esta vagabunda que há de ser incapaz. Sim, a trilha de seu perfume está fresca sobre a ponte, seu suor goteja e caem como orvalhos de sangue. Eu não te vejo, apenas sinto seu cheiro, como um predador que grita faminto, poderia te farejar a milhas de distância. Seu cheiro é tão bom.

Tão súbito quanto meus pensamentos, em meio a ponte sinto outros odores, ela chegou a seu destino. Aos poucos retorno para o lado da razão, e tão irônico quanto nostálgico, o destino dela é um baile de máscaras, em rico casarão em meio à floresta. Recomponho-me aos poucos e recolho uma máscara próxima à residência. Dentro da casa farejo um a um em sua busca. Sim, seu cheiro é tão bom e sinto-o vagamente, logo terei você. Eu a vejo em meio a multidão, apresso meu passo ao seu encontro, não há um só inocente aqui, mas a minha presa hoje é você, mulher das trevas.

Sigo-a até uma das entradas, com meu olfato logo percebo que se dirigistes para o jardim, sem pressentir o perigo que a ronda, me aproximo cautelosamente. Agora tenho você. Começa a chover, me aproximo olhando em seus olhos e toco sua pele úmida. Não me recrimine, você não vê a ponte queimando? Não grite, não se defenda, ou do contrário a ponte irá se partir. Tarde demais, a ponte se partiu e fiquei preso no lado do desejo, se existe algum Deus, que ele tenha misericórdia de todos neste recinto. A última coisa de que me lembro é que mesmo me tornando um animal, ela me deseja. Maldição, quem estava caçando quem?

Dentro da minha mente, estou encolhido dentro do esgoto, uma versão mais adulta e perversa de mim mesmo está andando ao meu redor e esbravejando. Olho e vejo minhas mãos, o que ele grita ainda é ininteligível para mim. Ouço o bater de vários corações, ritmados e contínuos. Eu posso sentir isso? Ohh merda! Dentre as batidas dos corações, uma vai ficando mais forte, a água treme a cada pulsar, a tensão vai aumentando, meus ouvidos vão se acostumando, me assusto com o que ouço, uma gargalhada.

Ele: Uhahaha! Uuuhahaha!
Posso sentir a minha mente rodopiando como milhões de pessoas se debatendo.
Ele: Hehehe, posso sentir você se afogando de vez em seu mar de abominações.
Vejo um sorriso sádico em seu rosto. Reconhece que ele é mais forte do que eu, ele poderá resolver tudo.
Eu: Estou quebrando, sou agora seu criado, me ajoelho perante você.
Se aproximando com um cuidado peculiar, ele se inclina um pouco e fala próximo a mim.
Ele: Você vai entregá-lo?
Sinto uma dor no peito, subitamente começo a chorar.
Eu: Parece que o que sobrou do meu lado humano, está mudando aos poucos… em mim.
Um pouco mais irritado me pergunta novamente.
Ele: Você vai entregá-lo a mim?
Arregalo os olhos. Olhando para o meu reflexo, quando ele muda violentamente. Não, agora não tem mais volta. Você acordou o demônio em mim!
Ele: Se levante! E caminhe junto com a enfermidade. Liberte o seu ódio e deixe que ele flua em mim.
Tendo súbitas convulsões, resisto a me transformar no que ele é!
Ele: Seu merda, venha, se levante e caminhe junto essa enfermidade.
Ele: A insanidade é o dom que nos foi dado!
Ele: Eu posso ver dentro de você. A enfermidade está se alastrando, não tente negar o que você sente.
Ele: Vamos, me entregue!
Tomado por dores alucinantes, me levanto pouco a pouco, e fala com voz tremula.
Eu: Parece que tudo aquilo que era bom está morrendo e se deteriorando dentro de mim.
Tomado pela loucura e urgência ele grita tão alto que me derruba novamente.
Ele: VOCÊ VAI ME ENTREGÁ-LO?
Uma vez no chão, ele leva a mão aos cabelos, e retoma alguma paciência que ainda existe nele.
Ele: Parece que você está tendo alguns problemas em lidar com estas mudanças, em viver com essas mudanças.
Com a face entre a lama do esgoto retruco.
Eu: O Mundo é um lugar amedrontador.

Tomado pela loucura, ele avança sobre mim, me levanta pelos cabelos e de alguma forma, enquanto profere as palavras abaixo, eu sou jogado dentro do corpo dele.
Ele: Agora que você acordou o demônio… Em mim…
Ele: Já basta, se levante e ceda à enfermidade, vamos se levante, a insanidade é dom que nos foi dado. Libere o seu ódio e deixe que ele flua em mim.

Quando acordo novamente, estou em meio ao salão, com centenas de corpos ao meu redor, a minha presa não está aqui, estou todo ensanguentado, não menos do que o recinto, minhas roupas estão em farrapos, não menos do que os corpos ao meu redor, sentado no chão, posso ver quando minha presa adentra o recinto junto com a polícia, eles atiram em mim. Estou morto. Impossível, eu sou imortal. Posso ver o rosto da minha presa, ela fala: “Vejo você no inferno”. Estou morto.

Na cidade, dias depois, um pequeno garoto com jornais em baixo do braço grita: “EXTRA, EXTRA, HOMEM LOUCO, PENSAVA QUE VIRAVA LOBO E MATAVA INDISCRIMINADAMENTE!”.

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Devir

Devir é um conceito filosófico que qualifica a mudança constante, a perenidade de algo ou alguém. O devir é exemplificado pelas águas de um rio, que continua o mesmo, a despeito de suas águas continuamente mudarem.

Devaneio

Enredo fantasioso criado pela imaginação durante o estado da vigília física ordinária da consciência humana.