Recados
A idéia surgiu a partir do blog de um amigo, o qual cedeu espaço para que várias pessoas colaborassem com seus contos. E ao decorrer do tempo, muitas novas pessoas vieram, e a minha quantidade de contos foram aumentando, com isso surgiu em mim a vontade de postar meus contos em um espaço pessoal.
Em um estrada deserta e escura acelero a mais de 160km/h, o vento em meu corpo e o som contínuo do motor soam como um mantra que me permitem relaxar e pensar sobre a vida. Penso que se algum dia eu fosse privado desta sensação de certo enlouqueceria. Muitas coisas podem acontecer para que eu não possa mais dirigir minha moto, mas tudo bem, eu aceito o risco, na verdade se não houvesse o risco não haveria emoção. Continuo divagando sobre riscos e recompensas por um bom tempo, até que em meio a estrada um objeto chama minha atenção. Imediatamente paro minha moto e o apanho, uma calcinha... Está rasgada.... Até ai tudo bem, mas eu nunca me contento com uma olhada superficial, então tento achar algo mais com a ajuda do farol da minha moto, e para minha sorte, ali está, uma garrafa de cerveja. O que tenho até agora? Uma mulher sem calcinha e qual a cerveja que ele ou ela gosta. Bom, por enquanto é isso, subo na moto e acelero novamente. Novamente me fecho em pensamentos de desejos e temores ao redor dos objetos encontrados. Uma parte de mim pede pra que isso me leve a alguma confusão, e a outra tem medo do que pode haver por trás disto, mas antes que eu possa concluir qual das duas partes é mais forte meus pensamentos são interrompidos por uma música, vem de adiante e ainda está baixa para mim, mas alta o suficiente para ocultar o som do veículo que a está reproduzindo. Aos poucos vou me aproximando e o riff e a letra me é familiar...
"If you're gonna die, die with your boots on,
If you're gonna try, well stick around,
Gonna cry, just move along,
If you're gonna die, you're gonna die."
Um caminhão... Gigante, descontrolado, usando a pista inteira como se fosse uma única via, indo e voltando da contra-mão, acendo o farol alto e acelero para o lado do motorista. Do meio da escuridão ele vê a minha figura surgindo em luz alta e agora o acompanhando lado a lado. Prestando atenção para que ele não jogue o caminhão pra cima de mim eu observo atentamente a cabine em busca de um rosto, o qual logo aparece e me olha com cara de quem estava fazendo algo de errado e finge que está tudo bem. Eu dou um boa olhada na cara do sujeito e ele ri para mim e faz o símbolo de metaleiro com a mão enquanto o som continua a tocar. Eu desacelero e apago o farol, com certeza ele não pode mais me ver por causa da escuridão e nem me ouvir por causa da música, vou para a traseira do caminhão e emparelho agora do lado do carona, ainda com o farol apagado, fico quase dois minutos olhando para a janela até que alguém aparece, uma menina, não mais do que quinze anos, um ematoma no rosto e chorando, ela me olha assustada como quem não pode denunciar ter me visto. "Hum, aquele sentimento novamente não é?" Converso comigo mesmo. "Já ví o suficiente".
Volto para trás do caminhão e saco minha escopeta que está escondida em um escapamento falso, miro e atiro em uma dos 16 pneus, tudo bem, ele não vai perder o controle por causa disso, atirei em um pneu de tração, além do que, estourar um pneu é rotineiro para um caminhoneiro. Depois do tiro guardo minha arma e vou desacelerando aos poucos, quando noto que a música parou eu também paro minha moto, deixando-a de lado no meio da pista caminho calmamente em direção ao caminhão parado, a cada passo posso escutar o caminhoneiro reclamando, ponho a mão na minha arma e quando a estou sacando pensando em como terminar isso da melhor maneira pra mim, sou surpreendido por um farol atrás de mim. A luz ilumina a mim e ao caminhoneiro que olha pra mim sem entender, eu me viro e não acredito no que vejo... Um carro de polícia.
Com arma em punho, um homem e uma mulher uniformizados mandam que levantemos as mãos, o homem se aproxima e pede nossos documentos. O cara do caminhão diz que precisa pegar os documentos na boléia, e eu fico sozinho com a senhorita policial. "Seus documentos!" Ela me fala com a arma apontada pra mim. Com um movimento rápido baixo uma das mãos e apanho algo em minhas costas. "Mãos para o alto!" Ela grita. Lentamente vou puxando do meu bolso o meu passaporte, ela apenas observa e eu jogo o documento aos pés dela. Ela se abaixa para pegar o documento e eu já abaixo as mãos e olho para o outro policial para saber se está tudo bem, e por incrível que pareça, ele está liberando o motorista. Vejo o caminhão sendo ligado, saindo e o policial voltando com uma grana na mão. "Merda". Eu penso. Ele se aproxima da policial e fala: "Então, e esse daí, o que podemos fazer com ele? Qual o nome do infeliz?". Ela agora com um aspecto claramente nervoso, diz "Ma... Major...". "OK, os dois estão liberados". Eu interrompo, passo por ela e tomo meu documento de suas mãos. Enquanto caminho para minha moto em meio à escuridão ela fala "Se...Senhor, o que estava acontecendo aqui? Existe algo que podemos fazer para ajudar?" Eu paro, de costas por uns dez segundos, me viro, olho bem pra cara dela, e volto para perto, agora, em meio a essa estrada deserta só se pode ouvir o barulho do motor da viatura ligado e os passos da minha bota.
- "Qual o seu nome senhorita?"
- "Lorena senhor".
- "Esqueça o senhor". Ela abaixa a cabeça.
- "Me diga uma coisa Lorena, você é como o seu amigo?"
- "Não senhor". Ela me responde de cabeça baixa.
- "Já disse para esquecer o senhor".
- "Desculpe".
- "Me dê um cartão com o número de sua viatura e seu código policial".
- "Aqui está".
- "Esteja preparada". Dito isto, eu vou em direção a minha moto, e saio em arrancada passando pelo carro deles.
Eu o perdi, mas não tem problema, dois fatores estão a meu favor, um é que sou mais veloz, e outro é que ele precisa dormir, então é uma questão de tempo até que eu encontre seu caminhão. Dirijo algumas hora a fio, quando sinto necessidade de comer algo, avisto um bar com várias motos e carros estacionados ao redor dele. Estaciono minha moto junto as demais, e antes de entrar dou uma volta no bar, mas nem sinal do caminhão. Adentro o recinto, o cheiro me lembra um chiqueiro, o visual um prostíbulo e em uma jukebox toca "Ace of Spades", o bar está lotado de bebados e vagabundas, alguns jogam sinuca, mas eu procuro uma cadeira proximo ao balcão, até que encontro uma, que até alguns segundos atrás estava ocupada por um bebado incosciente, estava, por que agora o chão é seu novo assento. Peço qualquer coisa para comer e começo a olhar o ambiente, até que vejo algo que por pouco não me fez engasgar. O caminhoneiro!
"Mas como?!" Eu penso, afinal eu havia vasculhado todo o estacionamento, e não encontrei seu caminhão, mas tudo bem, melhor assim, do meu canto ele não pode me ver, está no meio da multidão jogando sinuca com algumas companias de sua laia. Fico observando por algum tempo até que ele resolve dar em cima de uma menina, a menina, se é que podemos chamá-la assim, não aparente mais do que quinze anos, mas já está seminua em um bar como este, e me parece que está alterada por alguma droga, então do meu ponto de vista, ela está tendo o que merece, ou melhor o que buscou, mas isso pode ser uma porta, pra me mostrar o que tem alem disto. Ótimo, vou esperar.
Ao terminar de comer, fico em um canto ainda mais isolado e observo, depois de algumas horas, ele 'seduz' a menina com alguns puxões de cabelo e palavrões. Eis então que ambos resolvem sair, e sorrateiramente eu os sigo. Em meio ao pessoal do lado de fora, eu vejo que ele conversa mais um pouco com ela, enquanto ela ri. Depois de um tempo ambos vão se distanciando do bar, isto seria normal se não fosse um detalhe, o bar é no meio do nada, cercado de mato. Mas isto não é impecilho para eles, que adentram no mato. Rapidamente eu vou até o ponto em que eles entraram no mato. Existe uma pequena trilha rala, mal posso a identificar, mas mesmo assim vou tentanto seguí-la abaixado. Durante algum tempo posso ouvi-los falando, mas chega um momento em que as vozes se calam, com isso eu perco meu referencial, e para piorar, a trilha se divide em mais três caminhos. "Merda!". Não há mais o que fazer além de andar a esmo, e assim fico por algumas horas, até que próximo ao amanhacer eu vejo fumaça. Seguindo a direção rapidamente, eu chego a uma clareira, e nela existe uma casa! Dentro dela eu vejo o caminhoneiro na cozinha. "Bingo." Então é isto, por isso não vi seu caminhão, simplesmente por que seu caminhão está aqui, ao lado de sua casa. Certo, agora eu preciso de um tempo, decido então voltar para minha moto.
Ainda é de manhã e eu vou até a cidade mais próxima e aproveito para descansar em algum hotel barato. Durante o dia eu acabo por descobrir que o distrito da Lorena é daqui. Vou até a única loja de armas e compro mais munição, quando ele pede minha identidade nem ao menos se dá ao trabalho de ler meu nome. melhor assim. Preparo uma carta com um pequeno mapa e deixo na correspondência da delegacia, tomara que chegue até ela, isso será importante para ela, seria um desperdício se apenas eu me divertisse com isso. Espero a noite em frente ao bar da noite passada, uma viatura se aproxima na hora em que estipulei. Ela está sozinha, desce do carro com uma aparência transtornada, e com um ar de nervosa ela me pergunta:
- "O que você tem na cabeça?" Erguendo um dos braços enquando o outro fica na cintura.
- "Calma, eu apenas quero que você tire um pouco de mérito deste caso". Me levanto da moto e mostro as duas mão para ela como quem deixa a entender que não pretende machucá-la.
- "Você tem idéia do risco que eu estou correndo? Meu Deus, eu não devia ter feito isso". Ela fala isto enquanto me dá as costas e passa a mão no cabelo.
- "Você trouxe o que eu pedi?" Pergunto enquanto baixo os braços.
- "Sim... Está no porta-malas." Ela me responde ainda de costas.
- "Então vamos lá, nossa caça nos espera, não demore, eu já estou com tudo pronto". Ponho a mão nas costas e puxo minha escopeta ainda enrolada em um pano.
- "Você é louco! Mal sabemos se encontraremos algo lá. Como pode ter tanta certeza?" A policial me questiona.
- "Vê estas rugas no meu rosto, e esta cicatriz no pescoço? Elas são o suficiente para que eu saiba aonde devo ir."
Ainda relutante, ela vai até o porta-malas do carro e preenche seu coldre com sua arma de estimação, marcada por suas iniciais no cabo, completa o arsenal com mais algumas balas, com um ar de desconfiada, ela olha para os lados como se procurando por algum observador, bate a porta-malas, ajeita o cinturão e me perguntar para ter certeza:
- "Por que ele?"
- "Dissimulado, esta é a palavra que cabe."
Logo ponho-me a avançar por entre o mato, estamos com o tempo acertado, chegaremos lá próximo as duas da madrugada, tempo suficiente para resolvermos o que houver por lá, e a polícia chegar de manhã. O dinheiro que eu deixei com o dono do bar garantem que ele irá chamar a polícia no tempo exato. Por enquanto devo apenas me preocupar em não deixar a moça nervosa, caso contrário ela pode acabar com tudo em segundos. Durante nossa caminhada, eu converso um pouco com ela.
- "Lorena, por que tornou-se policial?"
Ela demora alguns segundos me olhando desconfiadamente, como quem estranha o súbito interesse.
- "Meu pai, ele foi minha inspiração para me tornar policial."
- "Ele também era um policial?"
- "Não... Ele espancava a mim e a minha mãe. Depois que eu arrebentei a cara dele e fiquei presa por alguns anos, resolvi virar policial."
Admito que ela me surpreende cada vez mais.
- "E você se arrepende disto?"
Ela fica um pouco pensativa e me responde.
- "Sim... Me arrependo de não ter matado aquele puto. Apesar dele nunca mais ter encostado na minha mãe, deve ter atormentado muitas outras por ai."
Após uma pausa, ela fala.
- "Sabe, esse é o pior tipo de pessoa que existe no mundo, os covardes..." - Com algum pesar na voz, ela continua a falar enquanto aperta a arma em sua mão.
- "Se eu pudesse acabaria com todos eles..."
Neste momento eu apenas a observo, enquanto afio meus olhos sobre seu semblante, e percebo a nossa afinidade. Nada falo. Em meu silêncio eu a aceito como igual, e agora ela tem meu total respeito.
Querendo fugir do tema de seu pai, ela me questiona.
- "E você, ainda é Major? Ou será que largou tudo para trás e resolveu realizar todos os seus desejos de coroa frustrado?" - Existe um ar de deboche em seu tom, dando a entender que a segunda opção é apenas um cenário impossível de acontecer.
Respondo com uma rispidez de quem sabe medir as palavras.
- "Algo do tipo..."
- "Covarde... essa é a palavra que cabia."
Sentindo que ela tocou em uma ferida muita profunda, ela se abstém e permanece em silêncio.
Após algumas horas de caminhada, começamos a enxergar alguma luz por cima do mato alto, e logo a luz está acompanhada por alguma música alta. Não demora muito e estamos realmente próximos à residência isolada do caminhoneiro. Agora que estamos próximos o suficiente para ouvir claramente a música, paramos para checar nosso equipamento novamente, enquanto olhamos para a casa, luzes piscam e podemos ver uma mulher nua correndo dentro da casa, enquanto um homem a segue calmamente enquanto a música toca...
"The ragged they come and
The ragged they kill!
You pray so hard on bloody knees.
The ragged they come and
The ragged they kill!
Down in the cool air I can see.
Hey, Yeah - I'm the one that you wanted
Hey, Yeah - I'm your Superbeast
Hey, Yeah - I'm the one that you wanted
Hey, Yeah - I'm your Superbeast "
Está combinado, eu vou pela porta da frente e ela irá pelos fundos, é uma casa com primeiro andar, e provavelmente tem um sótão. Nos separamos e ela vai com cautela sepre observando o perímetro da casa. Eu com cuidado para não ser visto vou me aproximando da entrada, olho pela janela e tudo o que vejo é uma casa com móveis caindo aos pedaços, comida e bebida pelo chão, mais parece um chiqueiro, bem apropriado para quem é seu dono. Não vejo nem sinal dos anfitriões, neste caso eu derrubo a porta com um chute, com a arma em punhos estou preparado para o melhor. O som do chute é impossível de ser notado, afinal o som está tão alto que nem uma bomba seria notada. Olhando para os lados, faço da mira da arma o meu olho esquerdo. O cheiro desta casa faz com que eu me lembre dos meus tempos de incursão urbana, é um cheiro bom, cheiro de ação, garantia de que a noite não seria sem diversão. Apesar do som tento ficar atendo ao som de disparos, pois Lorena pode acabar em apuros. Chego na cozinha, e isto aqui parece mais um matadouro, várias facas e sangue espalhado por todo o cômodo, alguns pedaços de carne estão em cima da pia. Por um momento eu me esqueço do que estou fazendo aqui e vou ver que tipo de carne é esta. "Filho da puta!" É pior do que eu imaginava, ele não é só um covarde, ele é um doente! Pego minha arma com as mãos manchadas de sangue, e pela vibração do piso percebo que alguém passou rápidamente atrás de mim. Me viro apenas a tempo de ver a figura de um homem andando e ficando de costas pra mim, em uma de suas mãos está um cutelo, e de tão compenetrado ele nem me nota, ao fundo vejo a mulher nua correndo e subindo uma escada. Como quem saboreia cada segundo ele apoia uma das mãos na parede e volta a perseguí-la lentamente, e eu passo a seguí-lo lentamente.
Subindo as escadas logo um terrivel cheiro de matadouro invade minhas narinas, o desgraçado deve realizar todos as suas loucuras aqui no meio do nada e ninguém nunca tentou ver o que ele faz. Isso me faz pensar se existe justiça neste mundo, afinal, ele sempre fez o que queria, e agora vai ter um, provavelmente doloroso se depender de mim, mas acho que por mais que eu o torturasse por horas a fio, nunca chegaria perto de toda a dor e sofrimento que ele já causou, será que é justo ele morrer sem conhecer a dor que causou? Bom, isso é algo que não me preocupo, pois a única coisa com que me preocupo agora é fazer com que ele pare, e de uma maneira ou de outra eu conseguire!
O sóton é imundo, com manchas de sangue seco por todos os lugares, várias moscas, corrente e pedaços etão espalhados, o calafrio que sinto só pode ser comparado ao do gladiador que adentra à arena e vê os mortos o observando. Andando devagar e com a arma em mira, vou procurando o desgraçado, aos poucos avanço e tão logo adentro em outro recinto vejo a moça nua e acuada em um canto, o caminhoneiro agora abrindo sua braguilha com uma das mãos usa a outra para levantar o cutelo, rápidamente ele avança sobre a mulher, ambos gritam, ela de pavor, e ele de prazer. Mas antes que sua mão acerte a mulher, ela acerta a parede ao lado, sua mão agora não é mais sua, foi separada por um tiro da minha arma.
A mulher esta em estado de choque, duvido que ela volte a falar durante algum tempo. Ele leva sua outra mão segurando seu ferimento e solta um grito de dor profunda, tanto que sobrepuja a música e faz gelar até a mais fria das almas. Ele se volta para mim, e com um rosto de surpresa e horror range os dentes, o ódio é tão nítido em sua face, que mais me recorda um animal do que um ser humano, talvez algo entre os dois, um monstro. Eu aponto minha arma para ele, o que faz com que ele se acoe. Neste momento a música para. Ele olha para os lados, ainda segurando a ferida, e fala: "Vamos, seja homem e termine logo com isso." Tendo dito isto, ele avança sobre mim, crente de que vou desferir o tiro de misericórdia. Ledo engano, pois a única coisa que ele recebe é o cano da minha escopeta no meio da fuça. O golpe, de tão violento, o desnorteia e faz com que caia sentado, me dando tempo o suficiente para que eu quebre um de seus joelhos com um chute, asim ele não irá a lugar nenhum, com um grito grave, ele esta sangrando e espumando, com todo ódio do mundo ele me encara. A mulher continua catatônica, apenas observa, como se não houvesse mais alma em seu corpo. Tudo bem, hora do julgamento.
Aponto minha arma para ele novamente, como o meu olhar fixo nos olhos dele eu falo:
- "Você deve sentir um grande orgulho em nunca ter se dedicado a algo."
- "Mentindo, roubando, trapaceando, e matando, realmente... um cara mal ein."
- "Seu pai um drogado, sua mãe louca e internada." - Ele olha para os lados e vê as fotos nos balcões e parades sobre seus familiares.
- "De um rapaz correto, para um rato de esgoto, parece que você não se importa com nada."
- "Sua irmã se droga sempre que pode, seu irmão um vocalista gay de banda, e sua primeira namorada... pegou herpes com sua ajuda e logo em seguida AIDS."
Neste momento ele grita: "Cale a boca! Do que você sabe seu filho da ....". Um chute interrompe a frase. Seu rosto vai ao chão, e fica mais raivoso ainda, porém seus ferimentos o impedem de fazer algo perigoso. Eu continuo. Ando até um espelho próximo e o arrando da parede, vou até perto do miserável e me abaixo, levanto a cara dele, puxando-o pelo cabelo, e coloco o espelho de frente para ele.
- "Olhe bem para o espelho. Olhe bem nos seus olhos."
- "Veja como o rosto que tem aqui é o de um monstro."
- "Olhe bem, e veja o que te espera. Será que você pode vê-los? Eles já estão te esperando?"
Como um olhar de assombro, ele fita o espelho fixamente. Mas só até que eu quebre o espelho na cara dele. Agora em prantos, ele apenas fica no chão.
Eu olho mais um pouco ao redor, procurando mais alguma mulher que pudesse estar por ali. Ele rasteja pelo chão, deixando uma marca de sangue. Tenta chegar em algum lugar, mas não vai a lugar nenhum. Penso em deixar este homem ai, abandonado a própria sorte. Vou até a moça, a cubro com uma cortina e a tomo no colo. Quando me viro, ele está abrindo uma bolsa velha e surrada, de dentro, ele puxa uma granada. Com um sorriso sádico, ele começa a se virar pra mim. Com dificuldade ele se senta. Olha pra mim e fala:
- "Nós dois... vamos... para o mesmo lugar, hehehehe....."
- "Assim que eu.... tirar... o pino dest....."
Um tiro irrompe no silêncio mortal. A cabeça dele se abre, e o sangue espirra. A granada, ainda com o pino, rola pelo chão. No canto da sala, a policia está com uma cara de ódio, ela chora, provavelmente de raiva. Ela ainda olha para o moribundo, que se mexe por espasmos. Gritando, ela descarrega a arma no cadáver.
Depois de um tempo, ela se acalma, e com a voz e mãos trêmulas ela me fala: "Vamos queimar tudo!". E assim fazemos, após tudo queimado, ela me fala:
- "Espero nunca mais vê-lo na minha frente."
- "Sim, deixarei a moça com você." - Eu respondo.
- "Afinal, quem diabos é você?" - Ela me pergunta.
- "Quem eu sou não importa, mas eu sei quem ele era. A escória desse mundo, uma doença..." - Ela fica em silêncio, como se compreendesse o que eu disse. E assim fica até que chegamos em nossos veículos. Não há despedidas, não há necessidade para sentimentalismos, cada um fez o que devia fazer.
Pra mim isso foi o suficiente, essa policial nunca mais verá o mundo da mesma maneira, e eu, bom, eu vou continuar seguindo a estrada, vendo até onde ela pode me levar, e no que eu estou me transformando.
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