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Recados

Sejam bem vindos ao blog, por favor sintam-se a vontade para expor suas opiniões e críticas.

A idéia surgiu a partir do blog de um amigo, o qual cedeu espaço para que várias pessoas colaborassem com seus contos. E ao decorrer do tempo, muitas novas pessoas vieram, e a minha quantidade de contos foram aumentando, com isso surgiu em mim a vontade de postar meus contos em um espaço pessoal.

A Sensação de Poder - Primeira Parte 

por Isaac Asimov

O presidente considerou tudo. E disse, "Se Shuman alega tudo isso, estou inclinado a acreditar na sua teoria. Mas, na prática, como alguém pode saber como um computador funciona?"
Brant riu de forma genial. "Bem, Sr. Presidente, eu me fiz a mesma pergunta. Parece que houve uma época em que os computadores eram desenvolvidos diretamente pelos humanos. Esses eram simplesmente computadores, é claro, isso foi antes da época do uso racional dos computadores para desenvolver computadores mais avançados."
"Sim, sim. Continue."
"O Técnico Aub aparentemente tem como hobby, a reconstrução desses mesmos tipos de dispositivos antigos e com isso ele acabou estudando os detalhes de como funcionam e descobriu que ele podia imitá-los. A multiplicação que foi apresentada a vocês é uma imitação da maneira como um computador trabalha."
"Impressionante!"
O Deputado tossiu gentilmente, "Se me permite mais uma observação, Sr. Presidente, o quanto mais conseguirmos desenvolver esta coisa, mais poderemos desviar os esforços Federais da produção e manutenção de computadores. E assim que o cérebro humano dominar, mais da nossa energia vai poder ser direcionada em causas de apaziguação e os impactos da guerra no homem comum serão menores. Isso será mais vantajoso para o grupo em poder, é claro."
"Ah," disse o presidente, "Entendo seu ponto de vista. Bem, sente-se, Deputado, sente-se. Eu quero um tempo para pensar a respeito disso. Mas enquanto isso, mostre-me o truque da multiplicação novamente. Vejamos se eu consigo pegar o jeito."
O Programador Shuman tentou não apressar as coisas. Loasser era conservador, muito conservador e gostava de lidar com computadores assim como seu pai e seu avô haviam feito. Ainda assim, ele controlava a combinação de computadores da Europa Ocidental, e se pudesse ser convencido a participar do Projeto Número com entusiasmo, seria de fato um grande feito.
Mas Loasser estava resistindo. Ele disse, "Eu não estou tão certo se gosto da idéia de moderar nosso controle sobre os computadores. A mente humana é algo caprichoso. O computador dará a mesma resposta para o mesmo problema todas às vezes. Que garantia nós temos de que a mente humana fará o mesmo?"
"A mente humana, Calculador Loasser, apenas lida com fatos. Não importa se é uma mente humana ou de máquina operando. Ambas são apenas ferramentas."
"Sim, sim. Estou convencido a respeito da sua demonstração genial de que a mente pode reproduzir um computador, mas me parece que algo ainda não fecha. Vou aprovar a teoria mas o que garante que a teoria pode ser transformada em prática?"
"Eu acho que temos razão, senhor. Afinal de contas, computadores nem sempre existiram. O homem das cavernas com seus barcos, machados de pedra, e trilhas não possuíam computadores."
"E possivelmente eles não computavam."
"Você sabe melhor do que ninguém. Que até mesmo a construção de uma trilha ou um zigurate precisavam de alguma computação, e provavelmente foram feitos sem os computadores como nós os conhecemos."
"Está sugerindo que eles computaram da forma como nos foi demonstrado?"
"Provavelmente não. Afinal, esse método é chamado de 'gráfico', que por sinal, vem da antiga palavra Européia 'grafo' que significa 'escrever' o qual é desenvolvida pelos computadores e pode ter antecedido a eles. Ainda assim, os homens das cavernas deviam ter algum método, não acha?"
"Artes perdidas! Se você vai falar sobre artes perdidas"
"Não, não. Eu não sou um entusiasta das artes perdidas, apesar de que eu rejeite a possibilidade de ser algo do tipo. Afinal, o homem comia cereais antes de hidropônica, e se os primitivos comiam cereais, eles devem os ter cultivado no solo. O que mais eles poderiam ter feito?"
"Eu não sei, mas só vou acreditar em cultivo no solo quando puder ver alguém plantando ceral no solo. E só vou acreditar em fazer fogo batendo duas pedras que puder ver isso também."
Shuman tomou uma atitude conciliadora. "Bem, vamos nos prender à grafética. É apenas parte do processo de etherealização. Transporte por meio de artifícios volumosos está dando lugar ao transporte direto de massa. Equipamentos de comunicação estão constantemente se tornando menores e mais eficientes. Em relação a isso, compare os seus computadores de bolso com os empregos massivos de centenas de anos atrás. Por que não, então, o último passo para acabar com todos os computadores de uma vez? Vamos, senhor. Projeto Número deve estar em foco; o progresso está ao alcance. Mas queremos a sua ajuda.
Se o patriotismo não o inspira, considere a aventura intelectual envolvida."
Loasser fala de forma cética, "Que progresso? O que você pode fazer além da multiplicação? Você pode integrar uma função transcendental?"
"Certamente, senhor. Certamente. No último mês aprendi a lidar com divisões. Posso determinar, corretamente, cocientes integrais e decimais."
"Cocientes decimais? Até quantas posições?"
O Programador Shuman tentou o tom casual. "Qualquer número!"
Loesser deixou o queixo cair. "Sem um computador?"
"Me dê um problema."
"Divida vinte e sete por treze. Com seis posições."
Cinco minutos depois, Shuman disse, "Dois ponto zero sete seis nove dois três."
Loesser conferiu. "Bem, agora, isso é impressionante. Multiplicação não me impressiona muito por que só envolve inteiros, e eu achei que um truque de manipulação poderia estar envolvido. Mas decimais..."
"E não só isso. Há um novo desenvolvimento que até agora, é super secreto e falando de forma franca, não gostaria de comentar. Ainda que tenhamos feito um grande avanço na área de raízes quadradas."
"Raízes quadradas?"
"Isso envolve algumas questões intrigantes e ainda não deixamos o sistema redondo, mas o Técnico Aub, o homem que inventou tal ciência e que possui uma fantástica intuição em como tudo se conecta, insiste que ele tem o problema quase resolvido. E ele é apenas um Técnico. Um homem como você, um matemático treinado e talentoso, não terá dificuldades."
"Raízes quadradas," silencia-se Loesser, encantado.
"Raízes cúbicas também. Está prestando atenção?"
Loesser repentinamente lança um aperto de mão. "Contem comigo."
O General Weider fez o caminho de volta a sala e se dirigiu aos ouvintes à moda de um professor feroz enfrentando um grupo de alunos recalcitrantes. Não fazia diferença se eles eram os cientistas civis a frente do Projeto Número. O general chefe de tudo, e assim se considerava a todo momento.
Ele disse, "Agora tudo bem em relação as raízes quadradas. Já consigo fazê-las e não entendo os métodos, mas está tudo certo. Mas, o Projeto não vai ser acompanho ao que vocês chamam de fundamentos. Vocês podem brincar com grafética da forma como quiserem depois que a guerra terminar, mas neste momento nós temos outros problemas bem específicos e práticos para resolver."
Em um canto afastado. O Técnico Aub escuta tudo aflitamente. Ele não era mais um Técnico, obviamente, sendo liberado de seus encargos e associado ao projeto, com um belo título e bom salário. Mas, claro que, as distinções sociais continuam e os tão bem posicionados cientistas líderes nunca admitiriam que ele se equiparasse a eles em uma escala de igualdade. Nem, para justiça a Aub, que ele mesmo desejava. Ele estava inconfortável com eles assim como eles com ele.
O general estava dizendo, "Nossa meta é simplesmente uma, cavalheiros: a substituição do computador. Uma nave que pode navegar no espaço sem um computador a bordo que pode ser construído um quinto do tempo e a um décimo do custo. Podemos construir esquadrões cinco vezes, dez vezes mais do que Deneb poderia se pudéssemos eliminar o computador.
"E eu vejo algo além disso. Seria fantástico agora, um mero sonho; mas no futuro eu vejo um míssil tripulado!"
Houve um momento de murmúrio no público.
O general se manifestou. "Atualmente, o nosso principal gargalo é o fato de que os mísseis são limitados em inteligência. O computador que os controla tem que ser gigante, e por isso só podem atender à evolução das tropas inimigas de forma insatisfatória. Poucos mísseis, se algum, atinge o alvo e assim a disputa de mísseis esta chegando ao fim; para o inimigo, felizmente, e para nós também."
"Por outro lado, um míssel com um homem ou dois dentro, controlando o vôo por grafética, seria mais leve, mais móvel, mais inteligente. Isso poderia nos dar a margem de liderança necessária para a vitória. Além do que, senhores, as exigências da guerra nos compelem a lembrar uma coisa. Um homem é muito mais dispensável do que um computador. Mísseis tripulados poderiam ser lançados em números e circunstâncias que general algum pode empregar utilizando mísseis direcionados por computador."
Ele disse muito mais mas o Técnico Aub não esperou.
O Técnico Aub, na privacidade dos seus aposentos, elaborou por longo tempo a carta deixada. A qual dizia:
"Quando eu comecei a estudar o que agora é chamado de grafética, não era mais do que um hobby. Não via nisso mais do que uma diversão interessante, um exercício da mente."
"Quando o Projeto Número começou, eu pensei que os outros seriam mais sábios do que eu; e que a grafética poderia ser posta em prática pelo bem da humanidade, para por exemplo ajudar na produção de equipamentos de transporte de massa talvez. Mas agora eu a vejo sendo utilizada apenas para morte e destruição."
"Eu não posso encarar essa responsabilidade, por ter inventado a grafética."
Ele então desligou a fonte de despolarização protônica dele mesmo e instantaneamente caiu morto e sem sofrimento.
Eles pararam sobre o túmulo do pequeno Técnico enquanto era feito um tributo a grandiosidade de sua descoberta.
O Programador Shuman curvou a cabeça junto com o corpo, mas permaneceu imóvel. O Técnico havia dado sua contribuição e não era mais necessário, depois de tudo. Ele pode ter começado com a grafética, mas agora que começou, ela vai continuar por si só de forma espantosa, triunfante, até mísseis tripulados sejam possíveis, e quem sabe o que além.
Nove vezes sete, pensou Shuman com profunda satisfação, é sessenta e três, e eu não preciso de um computador para me dizer isso.
O computador agora é a minha própria mente.
E foi impressionante a sensação de poder que isso deu a ele.

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